sábado, 1 de maio de 2010

Anarquismo e Antropologia (resenha)

Por Hilda Braga


MARTINEZ, Beltran Roca (org.). Anarquismo y Antropología: relaciones e influencias mutuas entre la antropología y el pensamiento libertario. Madrid: LaMalatesta Editorial, 2008, 269p.



Publicado em espanhol, o livro reúne ensaios de pesquisadores ingleses e espanhóis afinados com a questão libertária. São dez artigos que vão discutir os pontos em comum entre as idéias anarquistas e a antropologia desde a sua formação até a atualidade.

A idéia do livro organizado por Beltran Martinez surgiu do contato com David Graeber e da leitura de seu livro Fragments of an Anarchist Anthropology, e foi através da revista Anarchist Studies dirigida por Sharif Gemie, professor da School of Humanities and Social Sciences da Universidade de Glamorgan (Reino Unido) que ele identificou professores pesquisadores interessados na questão libertária dando início ao projeto desse livro.

O livro está dividido em quatro partes. Na primeira, temos Brian Morris com “Do anarquismo e antropologia: afinidades electivas” e Abel Al Jende Medina em “Possíveis contribuições ao anarquismo a partir de uma prática antropológica não profissional nas redes sociais locais”. Na segunda parte, os dois textos são contribuições para uma análise do poder em que Harold Barclay e Félix Talego Vázquez vão discutir a visão do anarquismo sobre poder, autoridade e dominação. Harold Barclay, ao contrário de Foucault e Weber, ressalta a questão do poder em igualdade ou mutualidade. Apresenta uma abordagem próxima ao que Pierre Clastres constatou sobre o poder disseminado na sociedade e exercido por todos, tomando o exemplo das sociedades tribais em que o papel do chefe é meramente aquele que tem o dom da palavra sem o exercício da dominação coercitiva. Já o artigo de Félix Talego defende a tese de que todos os tipos de autoridade em qualquer relação de dominação são construídos como mediadores, ou seja, todos aqueles que ao exigir obediência, o fazem invocando algum tipo de verdade superior. Sua argumentação é construída a partir de Nietsche, Weber e Bourdieu.

Na terceira parte, temos as “Novas abordagens sobre os movimentos contemporâneos” com David Graeber, Gavin Grindon e Jesus Sepúlveda. Destaco o ensaio critico que me interessou de David Graeber. Este faz uma desconstrução da idéia de choque de civilizações, da noção de civilização ocidental e democracia que não têm qualquer fundamento e revelam uma postura etnocêntrica e preconceituosa em relação às demais civilizações.

Finalmente, a quarta e ultima parte, em “Alternativas para o futuro com base no passado” temos Karen Goaman (o único artigo escrito por uma mulher) e John Zerzan, ambos discutem uma volta ao passado, embora Zerzan vá mais além em sua crítica. Karen Goaman defende o êxodo urbano, o despovoamento das cidades, a volta às culturas de pequeno porte baseadas na terra como meio para permitir aos humanos e a biosfera sanar e restabelecer-se.

Ao contrário de outras filosofias políticas, Beltrán Martínez reconhece que o anarquismo sempre teve um lugar marginal dentro do pensamento acadêmico como também foi muito mal entendido, ignorado e até mesmo, ridicularizado. Com a falência da teoria marxista após a queda do regime soviético tem-se voltado os olhares para a filosofia anarquista. E muito embora o movimento libertário tenha sido uma força predominante na Espanha, e ainda o é, hoje temos uma presença significativa de grupos de estudiosos do anarquismo nas universidades inglesas.

A antropologia ao se defrontar com o estudo das sociedades tribais vai realizar uma verdadeira revolução epistemológica, ao questionar as concepções teóricas dos finais do século XIX sobre a evolução social, raça e cultura, negando o evolucionismo social linear e a hierarquização das culturas humanas em superiores ou inferiores. A antropologia vai relativizar esse conhecimento a partir de seus estudos nas sociedades tribais.

O ensaio do inglês John Zerzan faz uma crítica contundente aos atuais e úteis conceitos de comunidade e tecnologia. Para ele não podemos falar de comunidade se não nos defrontamos cara a cara. Não existe nem comunidade global e nem virtual, mas sim uma forma de vida fria, feia e vazia em que as relações humanas estão cada vez mais tecnologizadas; e o comportamento humano está tornando-se mais estranho, patológico, com homicídios múltiplos, pessoas que não conseguem dormir, ampliando os índices das chamadas “doenças mentais”. Vivemos o mal estar da civilização e não tem nem mesmo psicanálise que dê jeito, ao contrário as “doenças mentais” tem tornado-se comum com um número crescente de medicações. Freud afirmou um século atrás que quanto mais civilização mais neurose.

Zerzan constata que estamos perdendo a luta contra a alienação e a degradação ambiental e precisamos questionar em seu nível mais profundo, essa sociedade de consumo que produz pessoas consumistas e passivas diante da vida moderna. Ele nos leva a refletir sobre a natureza da tecnologia que é a materialização dessa sociedade consumista, capitalista e moderna, fundada na divisão do trabalho e na hierarquia social. Por esta razão a tecnologia não nos liberta do trabalho. Lembra Marshall Sahlins que diz que quanto mais cultura simbólica, mais trabalho temos. Enquanto nós que necessitamos consumir, somos pobres e escravos do trabalho, os povos tribais, selvagens, caçadores e coletores de necessidades “escassas” vivem na opulência e com pouco trabalho. Para o antropólogo Marshall Sahlins, essas foram as primeiras sociedades da abundância e do lazer, no dizer de Pierre Clastres revelam uma sociedade contra o Estado.

Zerzan (p.259) ressalta que a essência do trabalho é expressa nas palavras sábias de Smohalla um nativo americano no século XIX:

Meus jovens não deveriam trabalhar nunca. Aqueles que trabalham nunca sonham. E a sabedoria vem a nós em sonhos. Me pergunta como cultivar a terra. Devo pegar uma faca e cravar no peito de minha mãe? Desse modo quando morra, ela não poderá levar meus restos a descansar. Me pedes que cave sobre uma superfície metálica. Deveria cavar sobre sua pele em busca de ossos?

Zerzan agrega que não é difícil constatarmos que a ação humana converteu-se em algo tão ameaçador para as espécies animais quanto para a nossa. Temos na história da ocupação norte-americana várias denúncias e críticas dos nativos sobre os efeitos nefastos da ocupação dos “brancos” no território americano. O exemplo dos povos tribais, sociedades organizadas em pequena escala, nos mostra que é possível uma outra forma de viver socialmente.

Sem sombra de dúvida, acredito que o livro contribui para repensarmos o debate atual da sociedade do consumo ao da globalização como também para aproximar e reunir aqueles que como diz Beltrán Martinez são apaixonados pela antropologia e pelo anarquismo.

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